Eu morri
Eu morri no dia 30 de abril de 2017. Naquele dia (um domingo), pela manhã, eu tinha um marido, planos de comprar uma casa, muitos problemas financeiros, uma família ainda se recuperando da perda do meu pai, em novembro de 2016. No final do dia, eu estava morta. Estava deitada em uma rodovia daqui de Brasília chamada L4. É uma rodovia muito conhecida por quem mora na Capital, tanto pelos seus clubes, pelo shopping, como pelos rachas que acontecem nos finais de semana.
Pois era lá que eu estava. Não fisicamente. Fisicamente, eu estava na casa do meu cunhado, a alguns quilômetros da tal rodovia. Mas tudo o que eu era estava lá, de cabeça para baixo, preso ao cinto de segurança do nosso carro. O Ri estava lá.
O Ri, no caso, era o meu marido. É o meu marido. Sempre vai ser o meu marido. Você que está lendo este texto nunca vai ter a chance de conhecer o Ri. A não ser pelos meus textos. E, sinceramente, os meus textos estarão um pouco distante da realidade. Porque eu vou escrever o que ele é para mim. E pode ser que ele tivesse uma vida secreta, sei lá. Eu acho que todo mundo tem uma vida secreta. Nem que seja só em pensamento.
Eu vi uma foto do nosso carro. Nessa foto, eu vi o Ri, preso ao cinto de segurança. Vi a camiseta dele, a bermuda dele. Vi as pernas, branquinhas. Vi uma das mãos, creio que a esquerda. Eu sempre fui apaixonada pelas mãos do Ri. Depois vou publicar aqui um texto que escrevi sobre isso há uns dez anos. Sobre as mãos dele.
No dia seguinte, fui ao IML fazer o reconhecimentos dos nossos corpos, meu e dele. Esperei o dia inteiro por esse momento. Foi cruel. Eu não estava mais viva, mas estranhamente sentia angústia. Esperei o dia inteiro para entrar em um corredor branco e frio, onde um carro já esperava, com a boca aberta, pelo corpo do Ri. E ele chegou. Em um saco de plástico grosso azul. Abriram só até o pescoço. Eu vi aquele rosto que eu amo tanto, que eu havia beijado tanto (mas não o suficiente), vi aqueles lábios que eu achava lindos, que já brigaram tanto comigo, que já me sorriram tantas vezes. Não era o meu Ri. Era o meu Ri. E ele foi. Levaram o corpo dele, mas deixaram o meu. Vazio. Sem vontade sequer de chorar. Eu havia reconhecido o corpo do Ri, mas não reconheci o meu. Nunca mais nesses quase três meses eu me reconheci. O que me leva a ter certeza de que eu morri mesmo. Eu morri no dia 30 de abril de 2017, por volta das 19h30.
Comentários
Postar um comentário